Uma das minhas partes sombrias

Uma das minhas partes sombrias

This is me. Not all of me, but, still, me.

Dentro de ti existem várias personagens sombrias. Elas não são tu, mas fazem parte de ti. Elas não são quem tu és mas, também, são quem tu és. Partes feias que tentas disfarçar, mas que na verdade toda a gente vê, apesar dos teus esforços.

Esta é uma dessas partes para mim. A Disgust.

Não consigo encontrar uma melhor palavra para esta minha personagem porque a tradução para português, “repulsa”, não me traz a mesma sensação que “Disgust” me traz. Até esta palavra entra na nossa boca da maneira que é sentida e vivida, com um certo tom de voz que nos olha de alto a baixo e diz “D I S G U S T”. Perfeito para quando me sinto possuída por esta personagem.

Então quem é que é a Disgust?
É uma parte de mim que me esforço todos os dias para não ser. Acho que uma das pessoas que melhor a deve conhecer é o meu irmão. Não sei o que é, mas acho que os irmãos têm o condão de nos forçar a tirar cá para fora aquelas coisas que nos esforçamos todos os dias para não ser. Nada como uma tarde com um irmão para saírem os monstros escondidos debaixo da cama. Ahahaha!!!! Coitados dos irmãos e irmãs por aí.

Bom, mas falando da minha “Disgust”, ela é a parte de mim que olha de cima para baixo para as outras pessoas, que se acha superior a toda a gente. É a parte de mim que anda com uma “rolha no traseiro” e que tudo a incomoda e é inadequado. É uma parte de mim que rola os olhos para trás da cabeça e que não tem paciência para nada nem para ninguém. Toda a gente a aborrece e parece lenta ao pé dela. Toda a gente é cansativa para ela. É a parte de mim que já não aguenta ler mais um erro ortográfico nas redes sociais. A parte de mim que pensa: “A sério que escreveste erradamente “traz” com s e acento duas vezes na mesma frase!!!!!!!!! Pelo amor de Deus!!!!”. É a parte de mim que acha quase tudo ridículo ao pé dos pensamentos, insigths e dilemas que está a viver eternamente. É uma parte de mim que não percebe como certas pessoas não veem o quão baixo nível são. É uma parte de mim que coloca os outros abaixo e a si mesma num pedestal, mas de uma maneira despreziva para os outros. É mesmo feia em tantos aspetos. Mesmo! Mesmo! Feia!

Mas esta parte de mim também é demais!!!! Tem um sentido de humor de “partir o côco a rir”, cheia de ironia e piadas negras. É a parte de mim que, por conseguir ver os defeitos de toda a gente, consegue perceber rapidamente o que alguém tem de mudar em si para melhorar a sua vida. Para ela, tudo isso é tão óbvio. É a parte de mim que ri e goza consigo própria. É a parte de mim que não admite que eu seja menos do que aquilo que posso ser. É a parte de mim que me exige sempre mais e que não fica demasiado contente por demasiado tempo com as minhas vitórias. Ela dá-me um sentido de realidade muito grande, não me deixa ser demasiado arrogante por incrível que pareça. Porque o que ela faz com os outros, faz também comigo. Quando começo a ficar muito contente comigo mesma e a achar que sou a maior, ela olha para mim com aquele olhar, meio desprezo, meio julgador e eu lembro-me logo do meu lugar. É a parte de mim que não tolera bullshit de pessoas que não interessam e que não perde tempo onde não é feliz.

Esta é APENAS UM EXEMPLO de uma parte de mim que tento esconder, que tento não ser. Como esta há muitas outras, muitas que não teria coragem de contar-te aqui, outras que eu nem conheço de tão insconscientes que são. Algumas dessas personagens “feias” são para ficar escondidas num alçapão debaixo do chão para sempre. Pouca coisa terão de positivo para se aproveitar. Há partes sombrias de mim e de ti que é assim que devem continuar. Sombrias. Pelo teu bem e pelo bem de todos nós.

Mas depois há partes sombrias de ti que contêm segredos e presentes que podes utilizar e que te acrescentam valor. Por isso, um exercício giro é este: conheceres a fundo as tuas partes sombrias e perceberes que pérolas têm para te oferecer. No caso da Disgust, ela traz-me muitas dores, mas também muito valor.

Trata-se então de uma dança que eu faço com ela, uma espécie de negociação. Eu deixo-a aparecer de vez em quando e ela promete não tomar conta das operações. Vou-me esforçando para que apareça na sua forma luminosa, mas nem sempre é possível. É como uma espécie de casamento, uma relação para toda a vida. Tem de haver comunicação entre nós, cada uma deve conhecer o seu papel e o seu lugar e ambas precisam de espaço e atenção. Sem essa dança, neste caso com a Disgust, não há equilíbrio espiritual para mim. Não poderia nunca abdicar dela. Porque sem a parte feia, a parte bonita ia embora também. Mas ao mesmo tempo, tenho de a manter com rédea curta. Como disse, é uma dança, uma negociação.

E tu? Queres partilhar aqui uma das tuas personagens mais feias?

Tem uma linda tarde sombria 🙂

Jo ♥

 

 

Art by: Pixar Animation Studios